Agosto: Mês da Visibilidade Lésbica

Por Debora Gepp - Embaixadora do Squad de Diversidade e Inclusão do HUBRH+abprh


O mês de Junho é amplamente conhecido por ser o Mês do Orgulho, em que pessoas, empresas e a sociedade de uma maneira geral celebram conscientizam sobre a diversidade LGBTQIAP+. Mas por que então precisamos de mais um mês para falar de visibilidade e orgulho lésbico? Esse questionamento é fundamental para entendermos a importância do pensar interseccional dentro da diversidade e inclusão, pois mesmo estando dentro de um grupo minorizado, as pessoas ou grupos podem sofrer mais de uma forma de discriminação e invisibilização, como é o caso das mulheres LBTQ+.

As lésbicas assim como as demais mulheres, sofrem com os efeitos do machismo, da misoginia e do patriarcado que impactam diretamente na sobrevivência, qualidade de vida, empregabilidade, direitos, liberdade, saúde, representatividade acadêmica, política, midiática e em cargos de tomada de decisão, dentre outros. Quando falamos de direitos, é importante lembrar que muitos direitos básicos foram garantidos às mulheres recentemente como o direito ao voto em 1932, direito a portarem um cartão de crédito em 1974, direito à prática do futebol em 1979 e apenas em 2018 a importunação sexual passou a ser considerada crime. Apesar das conquistas legais dos últimos anos, os índices de violência e discriminação contra as mulheres ainda são alarmantes, segundo o Datafolha, 40% das mulheres afirmam terem sofrido algum tipo de assédio e segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada 8 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, sendo que metade delas têm até 13 anos e, também, quando falamos de violência doméstica, a cada 2 minutos é registrado um caso no Brasil. Quando o assunto é representatividade, o Brasil ocupa a posição 142ª no ranking de mulheres na política, sendo a representação feminina apenas 14,8% segundo o IBGE e apesar de estudarem mais do que os homens, mulheres ocupam apenas 37% dos cargos gerenciais no Brasil.

Quando olhamos para o recorte LGBTQIAP+, esta população também sofre com os impactos da LGBTQIAPfobia e da heterocisnormatividade que faz com que esta população seja vítima de crimes de ódio, discriminação laboral, seja invisibilizada e também não tenha acesso a direitos e benefícios. Encontramos dados alarmantes sobre a situação desta população no Brasil, segundo o Grupo Gay da Bahia, a cada 23 horas uma pessoa LGBTQIAP+ é assassinada em virtude de crime de ódio e segundo a ONG Out Now, 68% dos LGBTQIAPs no país já ouviram comentários preconceituosos no ambiente de trabalho sendo que apenas 23% desta população considera o ambiente da empresa em que trabalha seguro para pessoas LGBTQIAP+. Em termos de acesso a direitos, apenas em 2013 os casais homoafetivos tiveram direito ao casamento e apenas em 2020 a população LGBTQIAP+ pôde doar sangue.

As mulheres lésbicas enfrentam as consequências do machismo e da LGBTQIAPfobia citadas acima e ainda, o que chamamos de lesbofobia, que é a discriminação e/ou violência contra mulheres lésbicas. A invisibilidade das mulheres lésbicas nasce na marginalização dentro mesmo do próprio movimento LGBTQIAP+ e também no movimento de mulheres, que sem o pensar interseccional acabou pautando apenas as vivências de mulheres heteros, brancas, cisgênero etc. Em resposta a isso, os movimentos de visibilidade lésbica no Brasil se iniciam nas décadas de 70 e 80 quando surge o GALF (Grupo de Ação Lésbico-Feminista) em resposta ao machismo e a invisibilidade da mulher que havia no movimento LGBTQIAP+ da época. Este grupo costumava se encontrar no Ferro’s Bar, local onde em 1983, o grupo foi vítima de lesbofobia por parte dos proprietários, gerando revolta entre as mulheres que ocasionou a primeira manifetação lésbica brasileira, se tornando um marco histórico no movimento LGBTQIAP+ e feminista. Depois de anos de articulação do movimento lésbico, no dia 29 de agosto de 1996, que hoje marca o Dia da Visibilidade Lésbica, foi realizado o primeiro SENALE (Seminário Nacional de Lésbicas), liderado por mulheres lésbicas negras.

Ainda que poucos, cada vez mais temos acesso a mais indicadores sobre a realidade brasileira para mulheres lésbicas, seja em representatividade ou violência. Segundo a UFRJ, 55% dos casos de lesbocídio são em mulheres que não performam a feminilidade e 83% são mortas por homens que as abordam na rua - diferentemente das mulheres em uma relação heteroafetiva que, em sua maioria, são vítimas de feminicídio dentro da própria casa. Além da violência há a própria invisibilidade acadêmica, midiática e representativa mesmo que crescente nos últimos anos ainda é pouco representativa.

O Mês do Orgulho Lésbico nos incentiva a nos educar sobre o tema, a pensar na importância da interseccionalidade e também na necessidade de pessoas, empresas e sociedade de uma maneira geral, ter um olhar atento a todas as dimensões da diversidade humana com suas potências e desafios ainda a serem superados.



Bio:

Debora Gepp é socióloga pela Universidade Federal de São Paulo e certificada pela Stanford University no LGBTQ Executive Leadership Program. Trabalha com Diversidade e Inclusão no setor privado há 8 anos, é cofundadora da Rede Brasileira de Mulheres LBTQ+, líder do Comitê de Mulheres LBTQ+ do Grupo Mulheres do Brasil e integra o Comitê de Diversidade e Inclusão da Associação Brasileira de Profissionais de RH (ABPRH). Em 2020 recebeu o prêmio de excelência individual do Out and Equal Workplace Advocates, por seu trabalho para a inclusão da população LGBTQIA+ no mercado de trabalho.