O que aprendemos com a crise de abstinência sem o WhatsApp?

Recentemente o conhecido neurologista argentino Facundo Manes, em seu livro ‘Ser humanos’, defende as funções “insubstituíveis” da humanidade frente à tecnologia. Facundo enxerga a tecnologia moderna impactando positivamente o nosso cérebro para um mundo pós-pandemia onde valorizaremos mais o ser humano.


Mas será que é este mesmo o nosso caminho? Bastaram algumas horas, nesse 04 de outubro de 2021, onde ficamos à tarde e início da noite sem o WhatsApp, para gerar uma verdadeira crise de abstinência.


Facundo chegou a prever em seu livro que em cinco anos, quem passar o dia todo no WhatsApp será tão mal visto como fumar em um avião. Mas o que ele não podia imaginar era que as suas teorias seriam testadas tão rapidamente.


Grande parte das pessoas, dentre as quais eu me incluo, passam os dias se relacionando com clientes, funcionários, sócios, fornecedores, familiares e, por aí vai, sendo que nos últimos tempos, concentramos grande partes destas atividades nos Apps de comunicação.


Quase que esquecemos as vantagens de um contato presencial, o que obviamente foi bastante prejudicado pela pandemia, ou uma ligação telefônica com o contato mais bem contextualizado, ou mesmo a importância dos canais de comunicação oficiais das empresas como os emails, que são preparados para preservar os meandros das relações comerciais.

No afã de dar maior celeridade e eficiência em nossas comunicações usamos o WhatsApp freneticamente para quase tudo que é virtual, e até mesmo alguns substituem relações não virtuais pelo tecladinho ou os áudios enviados.


Nem mesmo a pandemia foi capaz de nos trazer a realidade ponderada, vem então o crash! Uma tarde inteira sem WhatsApp, como sobreviver a tamanho desafio?

A primeira reação é a negação, quase como um luto, você desliga e liga o celular, pragueja contra o wifi, não pode aceitar o que está acontecendo. Outros vão dizer “Que ótimo, uma tranquilidade!” Eu me pergunto então, será mesmo essa uma reação autêntica?

Fato é, que passados mais alguns minutos, e na velocidade que a comunicação global gira, os principais sites de notícia passam a divulgar que a empresa detentora das maiores redes sociais do planeta está com a rede inoperante, mas ninguém sabe o que está acontecendo.


O início da tarde parece transcorrer com certa tranquilidade, quase que um alívio, uma pequena pausa, ainda que fictícia, mas logo a calma fictícia vai se transformando em certa ansiedade e angústia, que horas será que vão reestabelecer o sistema, a maioria se pergunta.


O WhatApp volta a funcionar no início da noite, ufa, podemos voltar a teclar e enviar áudios e vídeos freneticamente, mas quais serão as lições que podemos apreender com esse evento?


Espero que o Facundo tenha razão e a tecnologia possibilite a nossa evolução pela interface cérebro-máquina, por um salto evolutivo que nunca havia ocorrido pela biologia. Mas ainda precisamos aprender a lidar melhor com as tecnologias.


A notícia boa é que cabe a nós humanos decidir o que fazer e temos sempre a opção de escolha, podemos combater essa pandemia adicta de uso desmedido da tecnologia e usar a tecnologia a nosso favor, como preconiza o professor Facundo. Nós temos a nossa humanidade para discernir em como usar a tecnologia adequadamente, estabelecer os padrões que a tecnologia nos sirva e não virarmos escravos das máquinas, mas precisamos exercer esse grande poder.


Não podemos ficar submissos à tecnologia, temos que evoluir como humanidade ao mesmo tempo que evoluímos as tecnologias.


Vamos ter que criar códigos de conduta no uso das tecnologias, entender, por exemplo, que no ambiente corporativo nem sempre o WhatApp é apropriado, pois muitas vezes estamos lidando com dados pessoais, documentos, informações confidenciais, estratégias de negócios relevantes, o que exige uma forma adequada de se comunicar.


As lições apreendidas são que sim, a tecnologia pode ser viciante e precisamos lidar com isso de uma maneira franca e direta, reconhecendo que nós devemos impor os limites éticos ao uso adequado destes instrumentos.


E que não, o WhatsApp não é a solução mágica para todas as nossas relações, existem situações em que precisamos nos encontrar pessoalmente, falar ao telefone ou enviar um email com informações que precisam ser documentadas e preservadas em uma relação comercial.


Convido então você a refletir sobre essa tarde sem WhatsApp e como usar melhor a tecnologia em benefício da humanidade!


Hélio Moraes, Advogado e Vice-Presidente de Compliance e Boas Práticas HUBRH+